terça-feira, 20 de outubro de 2009

Texto reinventado


Aquela, como tantas outras, tinha sido mais uma execução, não lhe causava espécie alguma de remorsos, cada vez que P marcava P no rosto das prostitutas ou de algum indigente sentia-se livre! Sentia-se útil! Trabalhava para manter o sistema limpo sem ser pago. Naquela noite, mais uma noite de caça, ou execução como quiserem, dirigiu-se à zona dos bordéis onde as meninas expunham seus corpos semi-nus impregnados de perfume barato perceptível ao longo daquela rua estreita com pouca iluminação. Deteve-se a observar atentamente e houve uma silhueta que lhe chamou a atenção! O que é que esta ninfa está aqui a fazer? Questionou-se. Não tem ar de puta! Veio só fazer uns trocos? Assim que termina a frase, sente um suave toque no ombro que lhe causa calafrios. Por instantes viaja até sua infância, aterra em sua cidade natal e vê um filme a preto e branco passar diante dos seus olhos e parar naquele olhar vindo da sua memória a pedir socorro e afundar-se no rio. Aparece-lhe sem pedir licença! Tremem-lhe as pernas! Quase que desmaia! Oi gato! Não lhe apetece uma cerveja? Está tanto calor! Pergunta-lhe a dona daquele toque perturbador. Pela primeira vez em anos de trabalho sente-se inseguro, desnorteado, confuso e bastante aturdido com aquele simples toque. Já dentro do bar, cerveja na mão! Segunda viajem, esta na espuma daquela estonteante cerveja gelada. Vamos subir! No quarto, ela começa a despir-se enquanto acaricia as pernas de P, subindo até a zona púbica, morde o membro em erecção de P que pela segunda vez se sente desnorteado. Bem vou acabar com isto duma vez! Fecha os olhos agarra no pescoço dela com força pressionando cada vez mais com aquelas mãos musculadas, e de repente abre os olhos por instantes e aquele olhar fita-o na alma, empurra a rapariga para longe de si e atira-se para o chão em prantos. Ela sem saber o que fazer, incrédula com o que tinha acabado de acontecer. Será uma fantasia sexual dele? Atira-se ao chão de imediato, põe a cabeça dele no seu colo, passa-lhe as mãos nos caracóis com ternura enquanto lhe beija a testa. E P chora, chora, berra, quase que grita afogando-se nas próprias lágrimas, soluça compulsivamente. Aquele olhar dá-lhe segurança, sente-se redimido, de volta a casa, vêm-lhe imagens de uma infância com momentos de ternura enquanto sua mãe era viva. A redenção tinha chegado aquele quarto barato foleiro de bordel de esquina. Havia luz naquele inferno. Era a salvação.

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