terça-feira, 1 de março de 2011

O civismo

Imaginem o cenário:

café a transbordar de pessoas acotoveladas à espera de serem atendidas, e a chavena de café à espera de ser bebida/sorvida...no momento exacto ouve-se: colega o café faz mal a saúde! salta a tampa, salta o café e solta-se grunhidos internos (foda-se e se ficasses calada oh minha atrevida de merda, se soubesses o quanto o ar que expiras sufoca muita gente...)...sim colega sei que faz mal a saúde, mas a minha como já está fodida, tanto faz com ou sem cafeína, já agora vai um cigarrinho? ai também fumas colega? estás cheio de vícios...estás mal pah!
eu estou bem mal e tu se te metesses na tua vida estarias melhor!!
Isto tudo para dizer: o ser humano preocupa-se em demasia com o do outro, projecta no outro e identifica no outro o que não consegue ver em si mesmo, às vezes até consegue, ou finge que não vê ou não quer ver ou não reparou ainda que existe! o nosso "eu" existe à partir dos primeiros momentos da socialização primária (em família) e secundária (escola, etc, etc) e só nos damos conta de nós mesmos efectuando comparações com os vários "eus" apresentados pelos nossos "socializandos", ou os que connosco foram socializando e nos incutindo o nosso "eu"! quantas vezes ouvimos este cabrão é tal e qual ao pai, um malcriado de primeira categoria...e nós bem orgulhosos...tudo o que queremos ser na vida é "igualito como em cuba" ao nosso progenitor/cota/mais velho seja lá o que ele tenha sido...
A questão que se põe é como é que vamos olhar pó nosso rabiosque sem apanhar um torcicolo daqueles marados! portanto capacidade de auto-crítica aconselha-se aos que só existem quando socializam, quando são projectados no espelho da socialização...autocrítica e escuta activa...ingredientes mais do que suficientes para nos metermos na puta das nossas vidas em vez de perdermos tempo a dar bitaites nas dos outros e andarmos aí a bufar de inveja!!
Carpe diem
P.S: aqui vai um soneto do saudoso Bocage pa animar as hostes!
"Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente da malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
passou vida folgada, e milagrosa;
comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro
."