Gosto de música, música para o corpo, música para a alma, música, música e mais música. Sem ela morro, definho, desapareço, entro em estado de decomposição espiritual! É a minha amante mais antiga, a mais fiel de todas, a melhor! Não temos razões de queixa um do outro, ela vive sem mim, o contrário é impossível! Feitas as apresentações, vamos ao que interessa, vamos falar de “música da periferia”, e eu pergunto-vos a mim próprio, que estória é esta de “música da periferia”, e não me vou armar em teórico da música, coisa que não sou, sou só um amante, como já vos tinha dito, portanto nego-me a entrar em campos epistemológicos e apresentar-vos uma definição de música, todos nós sentimos “penso eu de que”, mas o que é a periferia? Consultei um oráculo, o wikipedia, e diz-me o seguinte: “ (…) num sentido genérico, quer dizer "tudo o que está ao redor". O termo é bastante utilizado em termos de geografia para designar toda a área urbana que está ao redor do centro urbano (…)” e o mesmo oráculo continua a definição e a entrar em mais pormenores, e o saber como dizem não ocupa lugar, ele diz-me que no Brasil periferia é sinonimo de subúrbios, zonas suburbanas associadas a classes mais desfavorecidas economicamente. E que nos States, periferia/subúrbio é exactamente o contrário, e vocês não imaginam o meu espanto quando descubro que nas terras do tio Sam, quem vive na periferia/subúrbio é a população de classe média/alta, enquanto os de renda baixa ou sem renda p**** nenhuma vivem nos centros das cidades, nos ghettos. Agora parei para pensar alto e digo, essa gente vive enclausurada dentro dos ghettos e a volta é só gente rica protegida por um “cordão virtual”, não me admira nada a violência social e racial que existe nos States. Atenção não estou a reduzir a razões geográficas os problemas económicos e raciais que existem nos EUA, isso deixo para os investigadores e académicos. Agora o próximo passo é pegar na concepção que temos de música (cada um de nós sente a música de uma forma muito intima) e associar a definição de periferia que o oráculo nos deu, e qual é o resultado de música da periferia? Música da periferia é aquela produzida pelos excluídos, pelos marginalizados do sistema capitalista global de consumo, produzida com os meios técnicos oriundos dos países capitalistas que no circuito de consumo eles não pertencem, vivem e existem ao lado deste sistema, mas consomem a tecnologia do capital. Reparem numa coisa, o conceito “periferia” em termos económicos ficou do legado político que é o terceiro mundo, ou seja a tal de Guerra Fria já acabou há vinte anos, mas ficamos com o conceito em cima das cabeças, interessante não? Neste contexto, a música da periferia é aquela que é produzida pelas zonas do globo antes consideradas economicamente como pertencendo ao Terceiro Mundo, e creio que o primeiro “grito” da periferia foi o reggae, (se estiver errado por favor corrijam-me, estamos aqui para aprender!) através do Bob Marley. E actualmente? O que vem da periferia para o centro? Vem tudo o que é novo e criativo, tudo! Para mim o ocidente esgotou a sua capacidade de criar e inventar novos estilos musicais, somente de recriar e reinventar À partir de modelos já existentes. Actualmente tudo ou quase tudo que se ouve na cena nocturna nas principais capitais da Europa ocidental tem um toque da periferia. Vejamos da América Latina, mais concretamente do Brasil, é exportado (e já teve o seu ponto máximo de consumo) o baile funk (
http://pt.wikipedia.org/wiki/Funk_carioca), directamente da favela, do ghettos, de zonas de exclusão social e económica, sai um produto cultural e económico para o homo europeus/americanus consumir, é que este tem um especial apetite por de toda a casta de produtos exóticos provenientes da periferia, desde o mulherio às drogas passando pela música. A história não para mas é cíclica, agora lembrei-me que há quinhentos anos quando cá vinham (a periferia) buscar escravos e N produtos para satisfazer hábitos de consumo da sua burguesia, nobreza e realeza, Nos dias que correm vêm cá buscar outras “produtos” para outros consumidores, mas a lógica do sistema é a mesma! Da África, mais concretamente de Angola vem o Kuduro (
http://en.wikipedia.org/wiki/Kuduro). Não o vou comparar ao baile funk, mas existem certas semelhanças entre os dois estilos. Do Caribe vem o ragga (
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ragga) e o dancehall, da India directamente para a noite Londrina vem o Punjabi moderno, produzido por emigrantes indianos radicados em Londres, e com influências do R & B e do Hip Hop. Quero sublinhar que estes géneros de música, para além de serem manifestações culturais de classe, são um grito de revolta, são armas de combate, para além da carga sexual que transportam consigo. Passo a explicar, essas “batidas” como muito boa gente classifica o kuduro ou o baile funk, surgem da periferia/subúrbios de grandes centros urbanos para consumo local imediato, e também como forma de “cantar” o dia-a-dia, de fazer crítica e sátira social. Até aqui tudo bem, é consumido aonde é produzido, quem consome é quem produz, cultura de subsistência! Agora o cenário muda de figura quando estes géneros saem do seu “micromundo” para outro mundo, para a “mesa” do burguês, da classe média. Quando acabam por ser exportados para o exterior. Resumindo dão o “salto”, tornam-se produtos de consumo da classe média ocidental, mas passando primeiro por um processo de retoque. Estes estilos já começam a ser produzidos fora dos locais de origem, já sofreram o processo de apropriação musical por parte de produtores e dj´s ocidentais (
http://www.guardian.co.uk/music/2009/jan/24/popandrock-worldmusic) que os divulgam e ganham uma outra roupagem, ganham uma voz, um tempo de antena! O ritmo mantém-se o mesmo, as adaptações são mais ao nível de melhorias técnicas no som final porque o novo consumidor já não é o habitante dos ghettos, o novo consumidor é cosmopolita, é de uma cidade grande na Europa ou nos Estados Unidos, é educado, tem dinheiro, tem posses…os músicos que fazem a sua divulgação e comercializações são outros, já não são os produtores originais, estes passam para notas de rodapé como criadores do género, quem lucra de verdade, porque estes discos por incrível que pareça têm muita saída no ocidente, são os novos actores (dj´s + produtores ocidentais) quem os recria, divulga e recolhe os respectivos dividendos financeiros. Os Buraka Som Sistema (
http://www.myspace.com/burakasomsistema) são um bom exemplo do sucesso nas pistas de dança e comercial da recriação do estilo kuduro e o Dj Diplo é um bom exemplo para o Baile Funk (
http://en.wikipedia.org/wiki/Diplo_(DJ).